A companhia passa a ser uma empresa fechada, controlada pela holding Abra

Gol Linhas Aéreas se despede da B3 nesta sexta-feira (27). A companhia, uma vez símbolo de inovação e liderança no setor, viu sua situação financeira apertar com uma dívida superior a R$ 20 bilhões. Agora, a aérea deixa o Nível 2 de governança corporativa da bolsa e passa a operar como uma companhia fechada, controlada pela holding Abra.

Do ponto de vista de quem tinha ações da empresa, o desfecho depende diretamente das decisões tomadas ao longo das últimas semanas.

No dia 19 de fevereiro, a companhia aérea realizou um leilão da oferta pública de aquisição (OPA), em que fixou em R$ 11,45 o preço por lote de mil ações preferenciais (GOLL54).

A adesão, porém, como informou a empresa em fato relevante no final de janeiro, não era automática. O investidor precisou manifestar interesse por meio de uma corretora, manter cadastro atualizado e transferir os papéis para a carteira específica da operação dentro dos prazos previstos.

Para quem não vendeu no leilão houve uma segunda janela. Entre 23 de fevereiro até a última quarta-feira, 25 de março, a companhia manteve aberto o período de aquisição de ações remanescentes, permitindo a venda pelo mesmo preço da OPA, com correção pela taxa básica de juros, a Selic, proporcional ao período.

Nesse intervalo, segundo a Gol, foram adquiridas 730.906.601 ações preferenciais, o equivalente a 0,0607% do capital social. O pagamento desses acionistas será concluído até a próxima segunda, dia 30 de março de 2026.

Além da OPA, os investidores tiveram a possibilidade de exercer o direito de recesso, mecanismo destinado a quem discordou da operação. Esse direito foi exercido por acionistas titulares de 12.971.679 ações preferenciais, com reembolso também fixado em R$ 11,45 por lote de mil ações, com base no valor econômico apurado no laudo da oferta.

O valor total a ser pago nesses casos soma R$ 148.525,56, com liquidação prevista até 30 de março.

No caso dos bônus de subscrição (GOLL80), houve uma janela para exercício entre 24 de fevereiro e 15 de março, mas nenhum título foi convertido, informou companhia. Ainda assim, esses investidores não ficam sem ativo. Com a incorporação, passarão a deter novos bônus emitidos pela estrutura societária resultante.

E o que acontece com o investidor que não vendeu suas ações da Gol?

Para quem não vendeu as ações dentro dos prazos disponíveis, o efeito é mais estrutural, de acordo com o anúncio inicial da operação.

A partir da próxima quarta, 1° de abril, data de eficácia da incorporação, a Gol Linhas Aéreas S.A. (GLA) passa a concentrar todo o patrimônio da companhia.

Nesse novo cenário, o investidor continua sócio, mas deixa de ter ações negociadas em bolsa. Ou seja, segue valendo a lógica inicialmente apresentada, de quem não vendeu passa a deter participação em uma companhia fechada, sem liquidez no mercado acionário.

As negociações deixam de ocorrer na B3 e passam a ser feitas exclusivamente de forma privada, por meio do escriturador contratado, a Itaú Corretora, que também passa a concentrar as informações sobre posição acionária.

A incorporação também redefine a estrutura de participação. “Cada acionista da Gol receberá uma ação ordinária da GLA para cada ação ordinária da companhia de sua propriedade, e 35 ações ordinárias da GLA para cada ação preferencial da companhia de sua propriedade”, afirmou a Gol no fato relevante.

“Dessa forma, após a Data de Eficácia [1° de abril de 2026], todas as negociações de tais valores mobiliários serão feitas apenas de forma privada, utilizando-se os formulários do escriturador (ou seja, não haverá mais negociação em bolsa de valores)”, acrescentou a companhia aérea.

Fim de uma era, mas não do risco

fechamento de capital não encerra os desafios da Gol. A partir da saída da Bolsa, a empresa passa a operar com uma estrutura operacional mais enxuta, frota em modernização e controle concentrado, mas segue exposta aos mesmos fatores que a levaram à crise — câmbio volátil, juros altos, preço instável do petróleo e infraestrutura deficiente nos aeroportos brasileiros.

A retirada da B3 reduz custos regulatórios e elimina a necessidade de reportes públicos frequentes, mas também restringe o acesso da empresa ao mercado de capitais local. Com isso, a companhia dependerá integralmente do capital da Abra e de outras fontes privadas de financiamento.

Em dezembro, a holding que, além da Gol, já controla a Avianca, comunicou ao mercado que protocolou uma declaração de registro preliminar no Formulário F-1 à Comissão de Valores Mobiliários (Securities and Exchange Commission, SEC) para sua abertura de capital nos Estados Unidos.

SBT News